FENAF 2026: nova casa, novos números e a presença asiática que divide o pavilhão
- Marketing DOUTOR FUNDIÇÃO

- 28 de jul.
- 4 min de leitura
A 21ª edição estreou no São Paulo Expo com 123 expositores e forte internacionalização. A composição do pavilhão, porém, reacendeu entre fundidores e fornecedores nacionais um debate que não é novo.
Entre 21 e 24 de julho, o Pavilhão 7 do São Paulo Expo foi o endereço da fundição latino-americana. A 21ª FENAF estreou em casa nova com 11.000 m² de área, 94% de ocupação e um total de 123 expositores — 80 brasileiros e 43 internacionais. Os dados, fornecidos pela ABIFA, confirmam o que qualquer visitante sentiu: foi uma grande edição do evento.
Mas tamanho não é sinônimo de unanimidade. E o que se ouviu nos corredores, nas conversas de pé de estande e nas mesas da praça de alimentação merece ser registrado com a mesma franqueza com que se celebram os números.
O que a FENAF 2026 entregou
A feira correu em paralelo ao 21º CONAF – Congresso ABIFA de Fundição, cujo tema foi "O futuro da indústria de fundição competitiva do Brasil". Pela manhã, 25 trabalhos técnicos nas áreas de metais não ferrosos, aço, ferro fundido e investment casting. À tarde, o pavilhão abria para os negócios — das 13h às 20h.
A internacionalização foi a marca desta edição. A FENAF contou com o primeiro Pavilhão Mexicano de sua história (organizado pela SMFAC), um Pavilhão Italiano de 140 m² coordenado pelo ICE-Agenzia e AMAFOND com 15 empresas, o Pavilhão da Turquia (Ankiros) e uma presença maciça de empresas chinesas, indianas e alemãs. Apoios institucionais da CIFRA (Argentina), ABIFER, ABM e ABAL completaram o mosaico.
Entre os expositores brasileiros, estiveram nomes de peso da cadeia: Inductotherm (C02), ASK Chemicals (D20), MSP Equipamentos (D19), Sinto Brasil (D16), Saint-Gobain (F02), Marbow Resinas (D28), Mineração Curimbaba (D35), Mineração Jundu (E08), MAGMA (D06), Tecnova (E18), SAIT Abrasivos (B36), Tennessine (F05), Magnesita (B22), Elkem (E16), Pyrotek (E31), entre dezenas de outros.
O elefante no pavilhão
Agora, o dado que nenhum release oficial destacou — mas que saltava aos olhos de quem percorreu o pavilhão:
Dos 43 expositores internacionais, 31 eram asiáticos — 28 chineses e 3 indianos. Isso representa 72% das empresas estrangeiras e 25% do total de expositores da feira. Os corredores H e C, em particular, pareciam um salão de feira em Xangai: fileiras inteiras de estandes de 12 m², 15 m² e 20 m² ocupados por fabricantes de equipamentos, abrasivos, fornos, moldes e matérias-primas da China.
Categoria | Quantidade | Representatividade |
Empresas brasileiras | 80 | 65% |
Empresas internacionais | 43 | 35% |
Expositores asiáticos (China + Índia) | 31 | 25% do total; 72% dos internacionais |
Expositores chineses | 28 | 65% dos internacionais |
O fenômeno não é novo. Já vinha das edições de 2022 e 2024, mas em 2026 ganhou escala. A Beijing Oyar Business, mesma empresa que organiza caravanas chinesas para feiras na Europa e na Ásia, foi responsável por levar boa parte dessas empresas ao São Paulo Expo.
E aqui está o ponto que incomodou — e não foi pouco — os expositores e visitantes brasileiros:
Enquanto a ABIFA abria as portas para uma enxurrada de empresas asiáticas com condições comerciais atrativas e estandes a preços competitivos, as fundições e fornecedores nacionais enfrentam, há anos, o mesmo conjunto de obstáculos: custo de energia entre os mais altos do mundo, carga tributária sufocante, juros que inviabilizam investimento e uma política industrial que, na prática, não se concretiza.
"A feira está linda, mas me diz: quantas fundições brasileiras de pequeno e médio porte estão expondo aqui? O cara não consegue pagar o estande e ainda competir com o preço do produto chinês que está sendo apresentado três corredores adiante."
A frase acima não é fictícia. É uma síntese do que foi dito por mais de um profissional ao longo dos quatro dias de evento.
A questão não é ser contra a presença internacional. Pelo contrário: a FENAF ganha relevância quando atrai players globais. A presença italiana, alemã, mexicana e turca é bem-vinda e agrega tecnologia. O problema é a desproporção e a falta de reciprocidade. A China, maior produtora mundial de fundidos, não tem um mercado aberto para o produto brasileiro. Mas o inverso é verdadeiro — e a FENAF se tornou uma vitrine para isso.
O papel da ABIFA e a pergunta que fica
A ABIFA é, e sempre foi, a entidade que representa a fundição brasileira. Sua função estatutária é defender os interesses das fundições e fornecedores nacionais. Organizar a FENAF é parte legítima dessa atuação. Mas quando a feira que leva o nome da associação se transforma em uma plataforma de entrada para concorrentes que operam sob condições industriais e regulatórias completamente assimétricas, cabe perguntar: qual é o limite?
O argumento de que a presença de fornecedores asiáticos "democratiza o acesso a equipamentos e insumos mais baratos" é real e tem mérito. Muitas fundições brasileiras se beneficiam disso. Mas o debate precisa ser mais amplo. Inclui política de conteúdo local, reciprocidade comercial, incentivo real à indústria nacional e, principalmente, transparência sobre os critérios de participação e os valores praticados para expositores estrangeiros versus nacionais.
O saldo
A FENAF 2026 foi, do ponto de vista de organização, qualidade dos profissionais e público, um sucesso. A mudança para o São Paulo Expo era necessária e se mostrou acertada. O nível técnico do CONAF manteve-se elevado. As conexões de negócios aconteceram. Para muitos expositores, o saldo foi positivo.
Mas sair da feira celebrando apenas os números sem olhar para a composição do pavilhão é fechar os olhos para um problema estrutural que a própria indústria brasileira de fundição enfrenta. A FENAF é o espelho do setor — e, neste ano, o reflexo mostrou uma cadeia nacional que resiste, mas que divide cada vez mais espaço com quem joga sob regras diferentes.
A próxima edição está prevista para 2028. Até lá, a pergunta que fica não é se a feira será grande. É se será justa.
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Fontes:
ABIFA – FENAF 2026
Lista Oficial de Expositores – Revista ABIFA Junho/2026
Portal Siderurgia Brasil
ABIFER News
Teleborsa – 15 aziende italiane
ICE-Agenzia – Padiglione Italiano
Spaço FM – Tecnova na FENAF
LinkedIn – Grupo Curimbaba durante a FENAF
LinkedIn – MSP Equipamentos
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